domingo, 28 de setembro de 2008
PAIS E FILHOS

Até agora eram muito mais infrequentes do que os casos de maus tratos dos pais para com os filhos e já não falamos dos maridos para com as suas esposas.
Significa isto que variou bruscamente a natureza humana, ou o que foi feito de modo gradual à instituição familiar?
Temos de resistir e admitir que a chamada "primeira célula social" contraiu uma doença gravíssima e que está criando metástases.
Observou Nabokov (*), que todas as famílias felizes são mais ou menos diferentes, mas todas as famílias desgraçadas são iguais, mas agora é mais difícil reparar essas desigualdades porque as bem acomodadas, ou bem resignadas, escasseiam.
É simplesmente desolador informar-se do número de miúdos e adolescentes que pedem socorro ao benemérito, Instituto de Apoio à Criança, ou SOS Criança.

Criaturas recentes vêem-se obrigadas, muito cedo, a aprender a que lugar inóspito os trouxeram uns senhores a quem não lhes pediram que os vestissem.
Têm problemas de todas as classes, desde os psicológicos aos sexuais, mas o principal é perceber que ninguém lhe liga,
Quem acredita, não só na família "quiçá menos nos números que não o merecem", mas sim nos amigos, no clã e até na máfia, admiramo-nos todavia mais que um pai o faça deliberadamente a um filho, que o inverso.
As drogas, o divórcio, que pode ser benéfico e o desemprego sem dúvida contribuem para o estado das coisas, mas não o justificam porque não tem justificação.
Contava Tono (**), que fugiu duma pensão porque viu um letreiro que oferecia "Tratamento familiar".
Para muitos o mundo é "uma bagunçada hospedaria", onde aliás não dão de comer.

(*)
Dmitrievich Vladimir Nabokov (1870 - 1922), criminalista russo, jornalista e político liberal.
(**)
Antonio de Lara Gavilán, (1896 – 1978), conhecido pelo pseudónimo de "TONO", deixou a sua marca, ao longo da sua vida profissional como caricaturista, cartoonista, escritor, autor de teatro e até chegaria a alcançar fama e sorte no cinema.
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quarta-feira, 24 de setembro de 2008
FURACÕES

O presidente Bush que não vive em paz histórica, advertiu de um aumento do preço da gasolina.
Era o que faltava.
O "Ike", que demonstrou uma vez mais que à chamada Mãe Natureza é-lhe indiferente e não lhe importa nada o destino dos seus filhos, matou pouca gente no Texas, mas pode-nos deixar moribundos a todos.
Em Cuba, sendo um pouco mais longe, a situação é catastrófica e agora não podem atribuir as culpas a Fidel, que se converteu num antepassado, nem ao iníquo cerco.
O responsável é o vento.
O furacão chegou a Wall Street e moveu os barris de petróleo, cujo preço está a acercar-se, outra vez dos cento e muitos dólares.
Para demonstrar que isso da globalização é verdade, há-de chegar um momento em que para nos salvarmos temos que montar num globo.
Sobre a capa da terra, as coisas estão a pôr-se muito difíceis.
O desmoronamento dos mercados financeiros pode afectar, inclusivamente os mendigos.

Quando o dinheiro não corre, pára tudo o mais, salvo o rancor.
Os sociólogos mais incontaminados vaticinam um espectacular aumento da delinquência e que se vai roubar, não só os escritórios, como também nas ruas e nas moradias geminadas.
Não falemos das joalharias, porque aí não ficará quase nada.
A paz social está intimamente ligada com as digestões.
Quando a gente não come ficamos de muito mau humor como se sabe, mas o pior é que isso não só afecta o carácter, como a moral.
Faz falta dispor do necessário para ser uma pessoa irrepreensível e o que ocorre à escala individual é extensivo aos países.
Aí, têm o caso do presidente boliviano, Evo Morales, que se viu obrigado a empenhar a sua camisola de cores impetuosas, enquanto espera que lhe enviem reforços, os nove mandatários da União das Nações Sul-americanas.

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